
Já não sei há quanto tempo, não reparo nas coisas simples do dia-a-dia...
Já não me recordo quando foi a última vez que me sujei toda a comer um gelado, que fiz caretas, já nem sei quando foi a última vez que dei uma boa gargalhada, com total espontaneidade... Hoje em dia já não há tempo para essas coisas! São tantos os problemas, tanto o trabalho (que deveria, mas nunca compensa), tanto em que pensar ao mesmo tempo, é tanto o stress que... Já não há tempo para apreciar, ou pelo menos, reparar por breves minutos, nas coisas belas que esta vida nos brinda de vez em quando. E saber, que se parássemos, encontraríamos a melhor recompensa que poderíamos desejar, ao fim de cada ano de trabalho... Saber que se aproveitássemos todas as milésimas de segundos com aqueles que nos são queridos, saber que se em vez de acabar o dia em frente ao computador, a escrever neste blog, estivesse a partilhar calor, neste dia tão frio, com companheiros de vida, tudo ganhava outro sentido, tudo valia a pena, tudo ganhava sabor a água fresca... mas não!
No outro dia, estava eu num jardim, dentro do carro. Vidro fechado. Estava a chover. Rádio desligado. Sozinha (a pessoa que me fez com a minha mãe, provavelmente, estava a fumar fora do carro), olhava para as gotas que escorriam pelo vidro, do Opel Corsa, em que me encontrava instalada e... percorria com elas, com as gotas, o caminho que faziam até à borracha, que une o vidro à porta do carro. E lembrei-me que já não reparava nisto, há muito, muito tempo... Lembrei-me de quando era pequenina, de quando me sentava no chão e encostava a cabeça ao vidro gelado, que fazia o meu corpo reagir e arrepiar-se de cima a baixo... Lembrei-me de quando encostava a cabeça a esse vidro gelado e agarrada à cortina, me deixava assustar pelos trovões, por aquela luz que me fazia fechar os olhos, por aquela chuva forte que parecia que ia partir o meu vidro gelado. E eu gostava... E ali continuava, até a minha mãe chegar e, dizer-me para eu sair do chão frio, antes que ficasse doente! Se tivesse uma máquina do tempo voltava a estes momentos e... fazia pause para sempre!
Foi a olhar para aquelas gotas de água, que me apercebi, de como o meu medo de crescer, era tanto ou mais que a minha vontade, de que tal acontecesse. É engraçado... Quando somos pequenotes só pensamos em crescer, em sermos ouvidos, em podermos ter vontade própria e quando finalmente esse momento chega, só queremos voltar a trás, voltar aquelas épocas em que nada nos preocupava, apenas queríamos crescer... é irónico não é?
Eu gosto da minha independência, aliás eu AMO a minha liberdade mas... Ás vezes tenho medo, ás vezes sinto-me sozinha, ás vezes só quero voltar a sentir aquela vontade de querer crescer e procuro, procuro, procuro esta ânsia de crescer, mas raramente a encontro...
Neste últimos tempos, tenho pensado em como já não me rio tão facilmente, como surpresas já não cativam como dantes, como às vezes sou tão fria, como ir para a escola já não é tão bom como era, de como voltar para casa implica respirar fundo e contar até 50 muito lentamente, de como já não tenho vontade de devorar um livro em uma semana, de como já não me interesso tanto pelo me interessava, de como já não sou simpática como era (juro que o era e MUITO), de como olho para o espelho e não reconheço o lá vejo, de como já não choro o que devia, de como já não digo o sinto e o que não sinto... digo, de como me tenho fechado nesta máquina com botões, de como às vezes me sinto sozinha e de como tenho medo de sentir isso, de como já não encosto a minha cabeça ao vidro gelado, da minha janela da sala... De como me sinto a crescer e de como não gosto no que me estou a tornar! E, depois fico triste, quando penso que já não sou sensível ao que me rodeia como era, que já não procuro o vidro gelado porque, talvez, ele já não me faça falta, que as coisas simples da vida, coisas estas que deveriam ser o nosso combustível para mais um dia, já não me prendem o olhar, o pensamento, o sentimento, o coração, a alma... E fico triste.
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